sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"Miniature paintings"





"Little Person" Jon Brion , Lyrics

I'm just a little person
One person in a sea
Of many little people
Who are not aware of me

I do my little job
And live my little life
Eat my little meals
Miss my little kid and wife

And somewhere, maybe someday
Maybe somewhere far away
I'll find a second little person
Who will look at me and say

"I know you
You're the one I've waited for
Let's have some fun."

Life is precious every minute
And more precious with you in it
So let's have some fun

We'll take a road trip way out west
You're the one I like the best
I'm glad I've found you
Like hangin' 'round you
You're the one I like the best

Somewhere, maybe someday
Maybe somewhere far away
Somewhere, maybe someday
Maybe somewhere far away
Somewhere, maybe someday
Maybe somewhere far away
I'll meet a second little person
And we'll go out and play

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

"Sinédoque, Nova York" filme 2009



alog 2000

Estou extremamente feliz em poder escrever a crítica sobre o novo trabalho de Charlie Kaufman! Não só porque sou fã declarado dele e de sua obra, mas porque Sinédoque, Nova York é um acontecimento!

Trata-se da estreia do roteirista na direção, trata-se também do melhor filme de 2008 e de uma das obras mais emocionantes, inteligentes e geniais dos últimos tempos.

Mas antes de começar o texto, vale um aviso: não é um filme fácil, não é para todos os públicos, não é exatamente o que podemos chamar de inteligível, é o tipo de obra que divide público e crítica e certamente há quem vai dizer que é arte pseudo-intelectual barata.

Sobre este último item, devo me adiantar que antes de ser excêntrico, Kaufman procura fazer sentido, por mais difícil e inacessível que possa parecer.

Não foi com a metalinguagem que o diretor foi reconhecido, ou pelo menos não foi por tal elemento que lhe fizeram as maiores honras. Em 2005, ele abocanhou o Oscar de melhor roteiro original por sua complicada e engenhosa trama na qual um sujeito após descobrir que sua ex-namorada o apagou de sua memória, decide passar pelo mesmo processo – e enquanto suas memórias são apagadas, ele descobre que ainda a ama e começa internamente, junto a lembrança dela, tentar reverter o processo. Entendeu? Ok, é assim mesmo.

Mas o fato é que a metalinguagem é uma constante em seus trabalhos, só não consigo dizer em qual ela se faz mais presente: Em Quero Ser John Malkovich, ele fez com que dois sujeitos encontrassem, literalmente, a porta para a mente do ator e, em Adaptação criou uma trama em que ele era o protagonista, tinha um irmão gêmeo e tentava, paralelamente as filmagens do primeiro filme, adaptar um roteiro sobre um ladrão de orquídeas ao mesmo tempo que desenvolvia uma segunda trama: a do ladrão de orquídeas que se apaixona pela mulher que está escrevendo um livro sobre sua história, livro este que mais tarde terá de ser adaptado por… Charlie Kaufman.

Aqui, o diretor de teatro Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman, monstruoso) está cada vez mais doente e deprimido. A mulher o deixa para viver com sua amante Maria, e leva consigo a filha do casal.

A medida que o tempo passa, Caden fica mais e mais doente, até que um dia recebe um telegrama com a notícia de que tem um gordo orçamento para fazer o que quiser. Ele decide então, montar uma peça que conta sua própria história e, dentro de um enorme galpão começa a construir tudo aquilo que faz ou fez parte de sua vida, inclusive o próprio galpão.

A trama ainda reserva outros arcos a serem desenvolvidos: Caden é um sujeito extremamente dependente do sexo feminino: além de sofrer com o abandono da mulher, a ausência da filha e a rivalidade com Maria, ele se envolve com uma bilheteira que mora em uma casa em chamas e também com uma atriz fascinada por seu trabalho, é analisado por uma controladora psicóloga e ao longo do filme vai se encontrando e até mesmo se fundindo com o sexo oposto. Não por acaso. A mulher é usada como alegoria por Kaufman, a fonte da vida, o poder de concepção que elas tem é justamente o que completa Caden, o artista. É o que o gera, o que o faz falta, o que o completa, o que o guia, aquilo que lhe condena e lhe amedronta. É Kaufman, mais uma fez presente na trama completando seu outro alterego, Caden.

O fabuloso elenco, quase que todo composto por mulheres é um dos grandes trunfos do longa. Exigüidade é dada para cada uma delas que passeiam entre o drama e a comédia sem tropeços. A trilha sonora nos dá toda a dimensão de solidão que cerca o personagem. A edição muda seu estilo conforme a trama pede, mas sem quedas de ritmo comprometedoras, muito pelo contrário. A suave e melancólica fotografia valoriza um lindíssimo e notável trabalho de direção de arte. Roteiro e direção magníficos.

No primeiro take, o diretor-roteirista já nos mostra do que fala seu filme com Caden acordando – nós, a platéia vemos apenas seu reflexo até que os créditos iniciais acabem.

Mas o filme não é exatamente sobre a metalinguagem, embora esta esteja presente desde as fezes da filha do protagonista até os inteligentíssimos e sarcásticos diálogos. É um filme sobre a solidão do artista e a busca e concepção da arte. Segundo Kaufman, a arte, até mesmo quando não a encontramos e a concebemos, está presente pois é em primeiro lugar, a essência do artista.

O texto reserva para cada piada uma dose de tristeza e para cada momento de maior dramaticidade, uma deliciosa dose de sarcasmo – nos vemos rindo do suicídio de um escritor e nos encontramos comovidos com uma cena de agressão que beira o pastelão.

Ainda há agradabilíssimos toques de surrealismo que nos remetem ao cinema de Luis Buñuel e a verborragia e o lirismo típicos das obras do sueco Ingmar Bergman, tudo isso assinado com estilo próprio que se nota pelo brilhantismo e fiel conexão ao texto. No mundo criado por Kaufman, absolutamente tudo faz sentido, tudo se conecta, tudo tem um significado e um porquê. Não há desperdícios, não há excessos e tudo está a favor do que se propôs a contar e, se é isso que define uma obra-prima, leve também em consideração que a genialidade anda aqui, de mãos dadas com as emoções mais genuínas que a arte pode causar.

Não me recordo de nenhum filme que tenha me feito chorar com os créditos finais e não me lembro de créditos finais, que por si só, significassem tanto para o que foi narrado nas duas horas anteriores. Obrigado, Charlie Kaufman.

domingo, 8 de novembro de 2009

"DICK FARNEY, PIANO E ORQUESTRA GAYA"(1967)


DICK FARNEY, PIANO E ORQUESTRA GAYA
Dick Farney (1967)
1967
Elenco
ME-27
Faixas

1. Valsa de uma cidade
(Ismael Netto, Antônio Maria)

2. Inútil paisagem
(Tom Jobim, Aloysio de Oliveira)

3. Blue walk
(Richards, Stitt)

4.Insensatez
(Tom Jobim, Vinicius de Moraes)

5. Some day my prince will come
(Churchill, Morey)

6 .... And roses... and roses
(Gilbert, Dorival Caymmi)

7.Preciso aprender a ser só
(Paulo Sergio Valle, Marcos Valle)

8.All the things you are
(Hammerstein II, Kern)

9.Influência do jazz
(Carlos Lyra, Vinicius de Moraes)

10.Fotografia
(Tom Jobim)


Dick Farney 14/11/1921 04/08/1987

Estudou piano clássico e canto com os pais e começou a se apresentar em programas de rádio interpretando repertório erudito de piano. Em 1937 estreou como cantor e mais tarde transferiu-se para a Rádio Mayrink Veiga, onde teve seu próprio programa, Dick Farney, sua Voz e seu Piano. Tocou em orquestras de jazz e música popular, se apresentando inclusive no Cassino da Urca. Especializou-se no repertório norte-americano até lançar o grande sucesso "Copacabana" (J. de Barro/ A. Ribeiro) em 1946, com arranjo camerístico de Radamés Gnattali, que seria considerado precursor da bossa nova. Ainda nos anos 40 esteve nos Estados Unidos onde se apresentou com Nat King Cole, Davis Brubeck e Bill Evans, e passou mais de um ano. Foi o primeiro a gravar o standard americano "Tenderly" (Walter Gross). Voltou ao Brasil consagrado pelas gravações que a Continental lançara quando estava nos EUA, como "Marina" (Caymmi). Nos anos 50 envolveu-se com o movimento de bossa nova, interpretando alguns clássicos como "Tereza da Praia" (Jobim/ B. Blanco), em dupla com Lúcio Alves. Participou também da primeira gravação da "Sinfonia do Rio de Janeiro", de autoria da mesma dupla, em 1954. Nos anos 60 e 70 excursionou por diversos países, fez programas de televisão e foi dono de boates em São Paulo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Dra. Rita Levi-Montalcini , Neurocirurgia. "


"Dra. Rita Levi-Montalcini - exemplo de SER HUMANO"


Publicado há 1 ano por Guilherme Moraes em ciência, cientista, Dra. Rita Levi-Montalcini, mulher, neurociência

A Dra. Rita Levi-Montalcini, que tem hoje 98 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina há 21 anos, quando tinha 77!!! Ela nasceu em Turím, Itália, em 1909 e obteve o título de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de San Louis. Em 1951 veio ao Brasil, para realizar experiências de culturas em vidro no Instituto de Biofísica da Universidade do Rio de Janeiro, onde, em dezembro do mesmo ano, a pesquisadora consegue identificar o fator de crescimento das células nervosas (Nerve Growth Factor, conhecido como NGF).

Esta descoberta lhe valeu, em 1986, o Premio Nobel para a Medicina, junto com Stanley Cohen. Entrevista no dia 22/12/2005 - Como vai celebrar seus 100 anos? - Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!- E o que você faz? - Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.
Não vai se aposentar?
Jamais! Aposentar-se é destruir o cérebro!
Muita gente se aposenta e se abandona...E isso
mata seu cérebro. E adoece.
- E como está seu cérebro? - Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.
- Mas terá algum limite genético ? - Não. Meu cérebro vai ter um século... mas não conhece a senilidade... O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!
- Como você faz isso? - Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!
- Ajude-me a fazê-lo. - Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faça com que ele trabalhe e ele nunca se degenerará.
- E viverei mais anos? - Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante. A chave é: manter curiosidades, empenho, ter paixões....veja...não me refiro a paixões físicas especificamente...simplesmente tenha paixões.
A sua foi a investigação cientifica... - Sim e segue sendo.
- Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso... - Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o prêmio por isso.
- Como foi que uma garota italiana dos anos 20 converteu-se em neurocientista? - Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.- Seu pai ficou magoado? - Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...
- Vejo que isso foi um estímulo... - Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho!
- E você tem feito... com sua ciência. - E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo, além de outras coisas...
- A religião freia o desenvolvimento cognitivo? - A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.
- Existem diferenças entre os cérebros do homem e da mulher? - Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.
- Por que ainda existem poucas cientistas? - Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.
- É verdade? - A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!
- A sábia Alexandrina do século IV... - Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela foi. Claro, o mundo tem melhorado algo...
- Ninguém tem tentado assassinar você... - Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição aos judeus... e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto... E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Costas largas e seios pequenos"






"Costas largas e seios pequenos "

Além dos números, que medem as costas, muitas marcas oferecem variação no tamanho das taças: Taça A; Taça B e Taça C, de acordo com o tamanho dos seios propriamente ditos. Isso traz mais conforto, por exemplo, para mulheres que têm as costas largas e os seios pequenos. É possível comprar um modelo de número maior se que haja folga de tecido ou espaço na frente. O mesmo vale para uma mulher com as costas estreitas e seios volumosos.

ENCARE
Meninas, seios pequenos? Muita calma, babies, se vocês não sabem, sempre foi chic ter pouco peito. Podem fazer uma pesquisa na internet com nomes de grandes artizes de todas as décadas. MUITAS tinham seios pequenos— até a Marilyn Monroe não era tão turbinada quanto se pensa. Há fotos dela de topless que comprovam isso. Não é porque a moda agora é silicone que vocês têm que surtar, e se vocês têm pouco peito, assumam isso com gosto. É só prestar atenção em alguns detalhes que tudo vai dar certo. Os seios pequenos também fazem parte de um ideal de beleza, foi quando há um tempo surgiram as imagens de mulheres com estilo esportivo, esguias e ágeis. Coco Chanel foi uma das mulheres que valorizaram essas medidas enxutas no busto.

sábado, 31 de outubro de 2009

" Menina Silvana" (Rubem Braga)


Rubem Braga

Para Ethel Paula


"Não se podre a observação a de Walter Benjamim de que os narradores desse tipo são uma espécie em extinção; estão cadas vez mais distantes, porque o que nos contam está cada mais ralo nos tempos modernos : a sua própria experiencia. No mundo industralizados do sempre igual, da rotina massacrante, dos homens divididos e das da relaçoes reificadas entre todos e tudo, como pode alguem ter algo especial e de seu para contar" (ARRIGUCCI, Achados e Perdido . "Onde Andará o Velho Braga ,Polis, 1979.p. 160)

Crônica de Rubem Braga

"A Menina Silvana"

A menina estava quase inteiramente nua, porque cinco ou seis estilhaços de uma granada alemã a haviam atingido em várias partes do corpo. Os médicos e os enfermeiros, acostumados a cuidar rudes corpos de homens, inclinavam-se sob a lâmpada para extrair os pedaços de aço que haviam dilacerado aquele corpo branco e delicado como um lírio agora marcado de sangue.

São recordações de momentos marcantes de sua infância e de sua juventude com os amigos.



Crônica de Rubem Braga

"O Padeiro"


Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: - Não é ninguém, é o padeiro! Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo? ”Então você não é ninguém?” Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido.
Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno.
Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno. Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome.
O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!” E assobiava pelas escadas.
Texto extraído do livro: Para gostar de ler, Vol I - Crônicas. Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga,12ª Edição, Editora Ática, São Paulo, 1989, P.63 - 64.





BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas: as melhores de Rubem Braga.11ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 1998

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Grupo Aranha"



A Sinfonia Da Cidade Ao Meio Dia, me deixa surdo para os sons que vêm de dentro, me deixa cego pelo brilho dos metais, me desafina pelo excesso de regência; mas isso já era, minha flor. Ouça "já": jásom, jáluz, jáestrelua, jábar, jámel, já toda nua. A nota "já", (ainda ausente?), aguarda a chance, de inaugurar um novo tempo no andamento. Ouça "já". Fora da partitura, longe da sinfonia. E ao teu redor, mulher jázul, jádália, e jacaré. Lual. Pois é. Já são sei não se horas adão.

Poema: Mário Montaut (sp)
Imagem: hélio Rôla (ce)

fortaleza é nossa debilidade



"Pintura Sensorial, Pintura Conceitual"


Herbert Rolim
Artista visual e professor do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (CEFET-CE).


Revisitar a década de 1980, sob a perspectiva das inserções do Grupo Aranha em Fortaleza, oportuniza um olhar distanciado de 20 anos sobre a cena artística cearense, de modo particular no que diz respeito ao fenômeno de formação de grupos, nesse período, como Grupo de Brigada Muralista, Fratura Exposta e Interferência, a exemplo de outros grupos procedentes de centros economicamente mais fortes, para onde convergiam as atenções, como o Grupo Casa 7, em São Paulo, e o Grupo Atelier da Lapa no Rio. Isto nos obriga, a princípio, a repensar o termo Geração 80, que deu título à exposição Como vai você, geração 80? (1984), no Rio, como sinônimo de arte dos anos 1980, do que se fazia no Brasil de forma generalizada, quando, na verdade, temos vários grupos e artistas emergentes espalhados pelo País.

Naturalmente que não podemos compreender esse recorte das Artes Plásticas Cearenses, a partir do Grupo Aranha, sem inseri-lo num contexto histórico-político-social maior, internacional e nacional, que vai do declínio do mundo soviético à queda do muro de Berlim, do movimento “Diretas já!” à hiperinflação e à eleição de Fernando Collor, pelo voto direto, para a presidência do Brasil. Fatos esses potencializados pelos meios de telecomunicações, contaminando regiões e culturas de modo abrangente e em ritmo acelerado.

Essa comunicação de ressonância global, cujo diálogo se fazia em torno de acontecimentos que atingiam a humanidade e intercambiavam as diferentes visões de mundo, contribuiu para a formação de grupos, independentes de organizações partidárias e institucionais, passando a se preocupar com questões ecológicas, sexuais, democráticas, desarmamentistas... – ações que iam além dos meios políticos convencionais.

No campo das artes plásticas, no Brasil, esse clima de organização e contestação se refletia nos jovens artistas dos anos 1980 em contraposição a uma crítica autoritária que insistia num discurso oficializado, de vocação geométrica, conceitual, de uma arte voltada para ela mesma, negando a pintura figurativa e impondo-se de forma hegemônica nos anos 1960 e 1970. Em outro sentido, as experiências sensoriais dos anos 1970, interessadas em ultrapassar os limites entre arte e vida, não abriam espaço para a pintura autoral, de ordem gestual, por entenderem que a arte, nesse caso, se reafirmava como mercadoria e o artista como celebridade, pontos não dogmáticos de sua cartilha conceitual.

Esses artistas, sobretudo aqueles vinculados à Escola do Parque Lage no Rio e à FAAP em São Paulo, criaram um movimento de resgate da pintura, alforriando-a para novas experiências. Para além do prazer da pintura, característica pela qual ficou mais conhecida (o que é pouco e limitante), a arte dos anos 1980 preocupava-se com questões de materialidade e representação, de dimensões de espaço e gesto, de construção de imagens e alegorias, de visualidade e conceitualização, de libertação do chassi e teatralidade, de subjetividade e aproximação do público. O mais importante era a liberdade de expressão, e nesse sentido cabiam diálogos com as gerações anteriores, principalmente com as vanguardas da pop arte dos anos 1960, no Brasil, ou às idéias e os conceitos das experimentações dos anos 1970, conquanto a pintura tivesse sua legitimidade.

Nos anos 1980, em Fortaleza, na falta de escolas de arte, os artistas plásticos trocaram idéias em torno dos salões de Abril, BNB e UNIFOR Plástica, das galerias Ignez Fiúza e Arte Galeria, do MAUC-UFC, da Sala Interarte do Centro de Cultura Germânica e da Casa de Cultura Raimundo Cela. É dessa trama de teias que vai emergir o Grupo Aranha, formado por Hélio Rôla, Sérgio Pinheiro, Eduardo Eloy, Kazane, Alano de Freitas e Maurício Cals, com a participação de Kátia, Efímia Rôla e outros artistas que se sentiam atraídos pelas idéias do grupo.

Hélio Rôla, mentor intelectual do grupo, retorna dos Estados Unidos, em 1970, depois de uma temporada de estudos no Art Students League de Nova Iorque. Em Fortaleza, mantém contato com Zenon Barreto, pioneiro de arte mural na cidade desde os anos 1960, razão pela qual foi escolhido, mais tarde, para ser patrono do Grupo Aranha. Nesse período, também se sente motivado pela arte de rua do pessoal do Pirambu, herdeiro do pintor Chico da Silva, que antecipa algumas características da pintura dos anos 1980, embora sem consciência das questões que na década seguinte iriam aflorar.

Em 1975, Hélio Rola passa a morar no então tranqüilo bairro da Praia de Iracema, onde pinta pedras e muros. Em 1978, ao lado de Sérgio Pinheiro, pinta o muro Modigliani. A parceria com o companheiro de pincel, que vinha do movimento hippie dos anos 1960 (“proibido proibir”), cujas trilhas da América Latina já havia percorrido, foi provisoriamente interrompida em 1979 quando Sérgio ganha uma bolsa do governo francês para estudar na Universidade de Paris, sob orientação do teórico em arte pública Frank Popper.

No entanto, a presença de Eduardo Eloy, de volta a Fortaleza em 1981, depois de freqüentar a efervescente Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro, campo minado do que se convencionou chamar de “Geração 80”, aqui em sintonia com as idéias de Hélio Rôla, contribuiu para lançar as bases do Grupo Aranha, ao lado de Alano de Freitas, Maurício Cals e do pintor e músico Kazane, recém-chegado do Rio Grande do Sul. Juntando-se a eles, Sérgio Pinheiro, em 1983, ao retornar de Paris.

Havia uma atmosfera favorável em Fortaleza. Vivia-se o clima nacional de uma sociedade que ia às ruas exigir seus direitos civis, que se mobilizava para participar da Constituinte, que conclamava por eleições diretas. Os artistas sentiam a necessidade de validar sua imagem à festa da democracia, de ampliar o circuito de arte, socializá-la, de buscar alternativas de mercado, de exercer o prazer da pintura.

Nesse clima, os muros da Praia de Iracema, até então, habitat da saudável boemia, tornaram-se suportes, a céu aberto, para o Grupo Aranha tecer sua pintura, alternando ações engajadas com experiências sensórias de deleite (“Pintura, Pintura”) com cores vigorosas e pinceladas gestuais.

A primeira ação de ressonância pública, assinada pelo Grupo Aranha, foi engendrada por motivações políticas, em 1987, quando um painel de 150 metros de comprimento, intitulado Constituinte, despontou no muro da Companhia Energética do Ceará (COELCE), na avenida Leste-Oeste, chamando atenção da cidade. Diante da repercussão desse mural, que teve o apoio da Fundação de Cultura de Fortaleza, a prefeita da cidade, Maria Luiza Fontenele, promoveu uma série de projetos (“Ônibus da Cultura”, “Arte nos Muros”, “Fort-Amor”, “Arte Urbano” de Sérvulo Esmeraldo), instaurando um olhar diferenciado no tecido urbano.

Outra “brigada de pintura”, esta de ordem ecológica, bateu de frente com a poluição sonora na Praia de Iracema, que, a partir da segunda década dos anos 1980, começou a sofrer invasão de empresários da noite, ao mesmo tempo em que a classe burguesa residente preferiu evadir para a Aldeota, permanecendo no bairro aqueles moradores mais resistentes. Desse quadro, em 1989, figurou o mural SOS Praia de Iracema, estruturado pelo Grupo Aranha, aberto a todos os artistas (e não-artistas) que quisessem participar com a finalidade de mobilizar a comunidade, recolher assinaturas de protesto, chamar atenção da mídia e sensibilizar a classe política.

Somaram-se a essas ações engajadas do Grupo Aranha outras de puro regozijo da poética de pintar, em diferentes muros da cidade, à semelhança da grande tela de 1990, exposta na Praia de Iracema como sincera celebração da cor e do gesto.

Mesmo para quem esses anos 1980, no Brasil, não passaram de uma “década perdida”, assim conhecida pelo turbulento sistema econômico; de “desilusão política”, por ter chegado ao fim tendo de negociar com velhos fantasmas da ditadura e lideranças nacionalistas de ocasião; de uma safra de artistas, segundo uma parcela da crítica de arte, com poucos sobreviventes depois da “farra da pintura”, da overdose de trabalhos nem sempre de qualidade, não podemos usurpar o mérito dessa geração de ter aberto os caminhos para a pluralidade estética da arte que vivenciamos hoje no País.

Trata-se também de História da Arte Cearense, cujo fio da meada passa obrigatoriamente pelas teias do Grupo Aranha.